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Debate exibido pela GloboNews em 16/11/2010 com a presença do psicanalista Joel Birman sobre a violência e a intolerância entre os jovens.

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Da Agência Senado:

O Senado comemora, no horário do expediente que antecede a sessão plenária desta quinta-feira (25/11), às 14h, o centenário da Associação Psicanalítica Internacional (International Psychoanalytical Association – IPA). O requerimento solicitando o evento é da senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) e contou com apoio de outros senadores.

Por iniciativa do médico Sigmund Freud (1836-1939) e de seus colaboradores, a IPA foi criada durante o segundo congresso internacional de psicanálise, realizado em Nuremberg, na Alemanha, em março de 1910. A proposta de fundar a IPA surgiu dois anos antes, durante uma reunião realizada em Salzburgo, na Áustria, em 27 de abril de 1908.

Hoje, a IPA é sediada em Londres, tem mais de 12 mil membros associados e serve de referência científica para os psicanalistas do mundo inteiro, segundo Marisa Serrano. A instituição também promove intercâmbio contínuo entre profissionais de várias regiões e países e estimula a criação de grupos de psicanálise em todas as partes do planeta.

“A Associação busca estimular a criação de grupos de psicanálise em todas as partes do globo promovendo debates, fazendo pesquisas, desenvolvendo políticas de treinamento e estabelecendo parcerias com outras instituições. No início, o principal papel da Associação era organizar os congressos científicos, com a maciça participação de psicanalistas do mundo inteiro. Hoje, tem um papel muito mais ativo durante todo o ano, tendo elevado consistentemente o número de associados”, afirmou Serrano.

A senadora destaca que a IPA é a principal instituição de coordenação e regulação da psicanálise em âmbito mundial, tendo como missão garantir o desenvolvimento desse campo do conhecimento, voltado, especialmente, para o benefício dos pacientes.

Em 1997, foi criado o Comitê da IPA para as Nações Unidas e, no ano seguinte, a instituição virou consultora junto ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. Sua expansão pelo mundo chegou até a China, que realizou, este ano, a primeira conferência psicanalítica naquele país, na qual debateu, entre outros temas, a evolução da psicanálise nos países asiáticos.

Febrapsi

No Brasil, é a Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi), fundada em 1967, que congrega e articula as ações das sociedades de psicanálise vinculadas à IPA existentes no Brasil. Sediada no Rio de Janeiro, a Febrapsi reúne, atualmente, 12 sociedades e 11 núcleos de psicanálise no país.

A entidade promove, a cada dois anos, o Congresso Brasileiro de Psicanálise, e produz regularmente a Revista Brasileira de Psicanálise, com trabalhos de psicanalistas brasileiros. As sociedades de psicanálise regionais também produzem suas próprias publicações.

 

Coluna de Eliane Brum publicada no site da Revista Época:

Acordo num susto. Estou ofegante e respiro pela boca. Confiro o relógio. São duas da manhã. Tive um pesadelo terrível. Mas não tenho a menor ideia, nenhuma pista mesmo, sobre de que matéria era feito. Este era tão ruim, falava de alguma verdade tão proibida, que mesmo ao acordar num repente é apagado. Seja lá o que for, vai assombrar meu sono e minha vigília ainda muitas vezes, adotando as formas mais diversas. Quando acordo novamente já amanheceu e agora eu guardo uma sensação boa. Eu voava e sabia que era um sonho. Podia voar sem medo de cair porque no sonho penso que, se cair, caio na minha cama. Passo o dia com estas duas sensações bem presentes dentro de mim. O susto não nomeado do primeiro pesadelo e meu voo sem medo sobre o mundo.

Estas duas sensações que vêm do sonho são menos reais para mim do que as notícias do jornal que leio enquanto tomo chimarrão? Ou o iogurte que como de colher com farinha de linhaça? As lembranças e sensações que você guarda do seu sonho e que às vezes lhe acompanham no cotidiano são menos reais para você do que as tarefas rotineiras?

Sigo no meu dia. Você que me lê também segue no seu, em algum lugar. Ao longo das horas eu devaneio enquanto cozinho, lavo roupa, passo no supermercado, devolvo dois filmes na locadora e estaciono meus pés na loja ao lado para escolher um creme para hidratar meu cabelo. Escolho um, mais barato, mas a moça me conta das maravilhas de outro e eu, que enquanto ela fala fantasio em minha cabeça imagens de meu cabelo reluzindo como o das propagandas de xampu, deixo-me enganar bem satisfeita.

Nas muitas horas que trabalho todo dia não saberia dizer por quanto tempo divago. Com certeza, muito. De repente, me pego olhando para a parede azul do meu escritório há uns bons 15 minutos. Sonho com uma possível viagem para a Escócia que planejo fazer com a desculpa de melhorar meu inglês, mas que é movida muito mais pelas fantasias que desde criança eu tenho com as Terras Altas, mulheres guerreiras e homens de kilt. “Eles não usam nada por baixo!”, brinca meu professor de inglês, dando apoio ao projeto, mas embalado por suas próprias fabulações.

Ao final do dia, leio um livro sobre a história do Haiti e lá pelas tantas estou no meio de um parágrafo tentando imaginar como eram os dias de Toussaint L’Ouverture, o líder negro que lutou pela libertação dos escravos e a independência do país. Mais tarde, converso com uma de minhas amigas mais descoladas e descubro que ela está com ciúmes da Kate Middleton. Suas dores nada têm a ver com o príncipe William, que ela até acha bem sem sal, mas sim com todas as histórias de princesa que leu e as comédias românticas a que assiste escondida até de si mesma. Minha amiga, uma mulher que se arriscou em dezenas de aventuras mundo afora e tem uma vida amorosa bem animada, quer ser princesa. Uma parte dela quer, é o que ela me diz, desconsolada com a descoberta, e já ligando para marcar uma sessão extra com o analista. Fico um pouco estarrecida, mas não exatamente surpresa. Até porque antes de dormir assisto ao “Robin Hood” de Ridley Scott. E obviamente quero ser Marion. Vou para a cama suspirando.

Conto aqui meu dia não porque ele seja especialmente interessante, mas porque possivelmente, com variações de temas aqui e ali, ele seja parecido com o seu naquilo que mistura de realidade e fantasia – em sonhos dormindo ou devaneios na vigília. Ainda que você divague com vitórias estrondosas do seu time de futebol, um sucesso profissional estonteante ou até ganhando na mega-sena sozinho (claro!) ou ocupando as manchetes em um ato de heroísmo. Ou se tornando um aventureiro intrépido em algum canto selvagem do mundo enquanto briga com a máquina de café do escritório.

Conto meu dia para que você possa lembrar o seu. E assim possamos ter bem presente que a fantasia ocupa mais tempo da nossa vida do que aquilo que chamamos de realidade. É, portanto, coisa séria. Não séria como sinônimo de chatice e sisudez, mas séria como algo para o qual vale a pena olhar com atenção – e não espanar como tema marginal. Quando lembramos o nosso dia, em geral recordamos os atos concretos, a rotina prática, desde a conta que pagamos no banco ao trabalho que realizamos. E assim calamos um pedaço grande do nosso cotidiano por desprezarmos como irrelevante ou, em alguns casos, até vergonhoso. Perdemos então a chance de nos conhecermos melhor e percebermos para onde caminha o nosso desejo.

É justamente sobre a realidade da fantasia um livro extraordinário que acaba de chegar às livrarias. Chama-se A psicanálise na Terra do Nunca (Penso – Artmed) e foi escrito pelos psicanalistas Diana e Mário Corso. Os autores nos lembram logo na introdução que, ao contrário de nossas crenças, vivemos mais na fantasia do que na realidade. “Quando reflete sobre si, o homem comum se vê como alguém racional, lúcido, com os pés no chão, mas que às vezes é tomado pela fantasia. Os psicanalistas acreditam no contrário: o homem sonha a maior parte do tempo, e em certos momentos, geralmente a contragosto, acorda”. E, mais adiante: “Na prática somos casados com a realidade, mas só pensamos em nossa amante: a fantasia”.

Não existe aí nenhum juízo de valor do que é melhor ou pior, certo ou errado ou mesmo mais ou menos importante. Apenas a constatação de que somos sonhadores despertos ou despertos sonhadores. Somos constituídos pelas nossas fantasias tanto quanto pelos fatos “reais” de nossa vida. Nossas fantasias falam de nós e moldam escolhas bem concretas na nossa trajetória. Desde o homem ou a mulher que escolhemos até a decisão de ter ou não filhos – e, no caso de tê-los, com que tipo de companheiro dividiremos esta tarefa. Assim como ajuda a determinar o que esperamos deste homem ou mulher, da família que vamos formar juntos e de nossos filhos.

É por causa de uma fantasia que eu escolho, como contei mais acima, viajar para a Escócia – e não para os Estados Unidos ou a Nova Zelândia. Tudo de concreto que acontecer lá terá começado décadas atrás, nas histórias das Terras Altas que lia na minha infância. É pela fantasia que os britânicos, assim como a minha amiga aqui, suspenderam sua rotina para falar do noivado do Príncipe William com a plebeia Kate Middleton. E não pela união concreta de um homem que começa a ficar calvo e de uma mulher que pouco se sabe além do fato de ser filha de uma aeromoça. É possivelmente devido à fantasia que o mundo não tenha perdoado Charles, o pai de William, por ter desejado ser o tampax de Camilla Parker-Bowles. Afinal, como ele teve o desplante de destruir num devaneio sexual todos os nossos melhores e mais puros enredos de príncipes e princesas que Diana tão bem soube aproveitar em seu marketing pessoal?

Temos a fantasia como algo menor em nossas vidas, quase um acessório decorativo. Como algo que supomos pertencer mais à infância do que à vida adulta. Nos equivocamos, porém. A fantasia é parte de nós e se faz presente em cada ato cotidiano. E não exatamente separada da realidade, como pensamos. Em geral não dá para dissociar fantasia de realidade, já que uma está imbricada na outra, influenciando-se e transformando-se mutuamente. Há grandes chances, inclusive, de que o nosso último pensamento antes de morrer seja uma fantasia sobre a nossa passagem por este mundo ou sobre o que nos espera em algum outro ou em nenhum, feita da matéria obtida no arsenal de sonhos e histórias de uma vida inteira.

Em seu livro anterior, Fadas no Divã (Atmed, 2006), Diana e Mário Corso se debruçaram sobre os contos de fadas, as histórias e personagens que habitam a infância e nos ajudaram a lidar com nossos medos, desejos e dilemas. Neste novo livro, os autores focam na cultura pop. Filmes, seriados e livros, especialmente, que por mobilizarem milhões e permanecerem no imaginário de uma geração ou de várias, são o que mais perto nossa época alcança de uma mitologia que organiza não a vida de todos, mas a de muitos.

Este livro delicioso, minha sugestão de presente neste Natal, nos ajuda a refletir sobre as fantasias compartilhadas de nossa época. Com a certeza de que nossas histórias preferidas são decisivas para nos tornarmos o que somos. Determinantes na conformação do companheiro, amante, pai ou mãe e também do profissional que somos ou seremos. Não somos muito diferentes das crianças que pedem para ouvir a mesma história muitas e muitas vezes para terem certeza do final – e a sensação de algum controle sobre o que nelas provoca confusão e medo. É bem parecido o que fazemos ao revermos, sempre que possível, os filmes, seriados e até as novelas com as quais nos identificamos de diferentes maneiras.

O que a série de ficção científica “Alien” nos diz sobre a maternidade, por exemplo? Ou “Os Simpsons” do novo lugar do pai na família contemporânea? Ou os androides de “Blade Runner” sobre a queixa do filho de que o pai não ocupa mais o papel tradicional? Ou ainda “Os Waltons”, para quem se lembra de John Boy e Mary Ellen, sobre a família perfeita que ninguém jamais teve? Assim como as crianças que fomos têm muito a agradecer à madrasta da Branca de Neve por ter nos ajudado a elaborar a raiva que às vezes sentíamos de nossa mãe, mas que não ousávamos pronunciar, os adultos que somos têm muito a agradecer ao bebê Alien que “nasce” do tórax dos humanos encarnando alguns de nossos medos mais impronunciáveis.

A ficção nos ajuda a lidar com nossa realidade mais profunda. E só pode nos ajudar porque é real. Se não fosse, filmes, livros e seriados que marcaram a vida de muitos não teriam sucesso nem ganhariam permanência. Não se trata apenas de entretenimento, algo menor e menos importante, mas de nossa própria carne. Os vampiros da série literáriaCrepúsculo, ainda que mais palatáveis e limpinhos que seu bisavô imortal, o Drácula de Bram Stoker, só vivem em nós – ainda que mortos – porque a relação entre sexo e morte faz parte do que somos e do que nos inquieta no que somos.

Engana-se quem pensa que fantasiar é algo incompatível com a vida adulta. Ao contrário. O que fazemos por toda a nossa existência é justamente inventar uma vida. Que sempre será em boa medida uma ficção. Quando nascemos, é a mãe que inicia a nossa narrativa, quem nos conta que somos alguém pelo seu olhar e pelo seu toque. Para que pudéssemos existir, nossos pais precisaram antes nos imaginar. O livro do bebê será nosso primeiro diário, a primeira história que dá conta de nossa existência como indivíduo. E depois da mãe e do pai virão os avós, os irmãos mais velhos, os personagens do mundo para além da casa. Nos tornamos adultos quando enroscamos em nosso próprio dedo o fio da narrativa de nossa vida.

Acredito que perceber a presença da fantasia na trama de nosso destino nos ajuda a derrubar algumas crenças pessoais e coletivas que nos atrapalham. E mais nos atrapalham porque as confundimos com verdades absolutas e irrevogáveis. Assim como acolher a fantasia no cotidiano pode nos tornar pessoas menos enrijecidas – ou menos paralisadas – por medos que não conseguimos nomear. Não é que podemos crescer e seguir sonhando. A questão é que só podemos crescer se seguirmos sonhando. Como nos lembra a epígrafe de A Psicanálise na Terra do Nunca, na frase brilhante de Fabrício Carpinejar: “A imaginação é o direito constitucional para viver de novo. Não desperdice a vida com uma única vida”.

Não por acaso o título do livro refere-se à Terra do Nunca, o território fantástico e mutante descrito por J.M. Barrie. Como lembram os autores, em um determinado momento Peter Pan pede a Wendy que volte para a Terra do Nunca. Para convencê-la, usa um argumento forte. Wendy poderia ensinar os Meninos Perdidos a contar histórias. Se eles aprendessem, poderiam crescer.

Em cada um de nós mora um menino perdido da Terra do Nunca. Querendo crescer sem saber muito bem como. Achando que está acordado quando passa a maior parte do tempo sonhando. Sem saber que a maior ficção de todas é acreditar que tem os dois pés no chão.

 

 

Coluna de Contardo Calligaris de 18/11/2010

Cena do filme A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor

QUANDO EU era criança ou adolescente, pensava que a felicidade só chegaria quando eu fosse adulto, ou seja, autônomo, respeitado e reconhecido pelos outros como dono exclusivo do meu nariz. Contrariando essa minha previsão, alguns adultos me diziam que eu precisava aproveitar bastante minha infância ou adolescência para ser feliz, pois, uma vez chegado à idade adulta, eu constataria que a vida era feita de obrigações, renúncias, decepções e duro labor.

Por sorte, 1) meus pais nunca disseram nada disso; eles deixaram a tarefa de articular essas inanidades a amigos, parentes ou pedagogos desavisados; 2) graças a esse silêncio dos meus pais, pude decretar o seguinte: os adultos que afirmavam que a infância era o único tempo feliz da vida deviam ser, fundamentalmente, hipócritas; 3) com isso, evitei uma depressão profunda pois, uma vez que a infância e a adolescência, que eu estava vivendo, não eram paraíso algum (nunca são), qual esperança me sobraria se eu acreditasse que a vida adulta seria fundamentalmente uma decepção?

Cheguei à conclusão de que, ao longo da vida, nossa ideia da felicidade muda: 1) quando a gente é criança ou adolescente, a felicidade é algo que será possível no futuro, na idade adulta; 2) quando a gente é adulto, a felicidade é algo que já se foi: a lembrança idealizada (e falsa) da infância e da adolescência como épocas felizes. Em suma, a felicidade é uma quimera que seria sempre própria de uma outra época da vida -que ainda não chegou ou que já passou.

No filme de Arnaldo Jabor, “A Suprema Felicidade”, que está em cartaz atualmente, o avô (extraordinário Marco Nanini) confia ao neto que a felicidade não existe e acrescenta que, na vida, é possível, no máximo, ser alegre. Claro, concordo com o avô do filme. E há mais: para aproveitar a vida, o que importa é a alegria, muito mais do que a felicidade. Então, o que é a alegria? Ser alegre não significa necessariamente ser brincalhão. Nada contra ter a piada pronta, mas a alegria é muito mais do que isso: ser alegre é gostar de viver mesmo quando as coisas não dão certo ou quando a vida nos castiga. É possível, aliás, ser alegre até na tristeza ou no luto, da mesma forma que, uma vez que somos obrigados a sentar à mesa diante de pratos que não são nossos preferidos ou dos quais não gostamos, é melhor saboreá-los do que tragá-los com pressa e sem mastigar. Melhor, digo, porque a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.

Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para nós mesmos. Alguém perguntará: é reconhecível como? Pois é, para quem consegue ser alegre, a lembrança do passado sempre tem um encanto que justifica a vida. Tento explicar melhor. Para que nossa vida se justifique, não é preciso narrar o passado de forma que ele dê sentido à existência. Não é preciso que cada evento da vida prepare o seguinte. Tampouco é preciso que o desfecho final seja sublime (descobri a penicilina, solucionei o problema do Oriente Médio, mereci o Paraíso).

Para justificar a vida, bastam as experiências (agradáveis ou não) que a vida nos proporciona, à condição que a gente se autorize a vivê-las plenamente. Ora, nossa alegria encanta o mundo, justamente, porque ela enxerga e nos permite sentir o que há de extraordinário na vida de cada dia, como ela é.

É óbvio que não consegui explicar o que são a alegria e o encanto da vida. Talvez eles possam apenas ser mostrados: procure-os em “Amarcord” (1973), de Federico Fellini, em “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003), de Tim Burton ou no filme de Jabor. “A Suprema Felicidade” me comoveu por isto, por ter a sabedoria terna de quem vive com alegria e, portanto, no encantamento.
Segundo Max Weber (1864-1920), a racionalidade do mundo industrial teria acabado com o encanto do mundo. Ultimamente, bruxos, vampiros, lobisomens, deuses e espíritos andam por aí (e pelas telas de cinema); aparentemente, eles nos ajudam a reencantar o mundo.

Ótimo, mas, para reencantar o mundo, não precisamos de intervenções sobrenaturais. Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.

Publicado no site da Revista Época:

A psicanálise é poesia. A psicoterapia, prosa. É com essa comparação que o argentino Leonardo Gorostiza, presidente da AMB (Associação Mundial de Psicanálise) ilustra a diferença entre a prática clássica criada por Sigmund Freud e desenvolvida por Jacques Lacan (1901-1981) das demais terapias comportamentais, baseadas em vivências, jogos e questionários, tão em voga em um mundo cada vez mais refém da velocidade e dos resultados em curto prazo: “Trata-se de uma linguagem sem metáforas e metonímias, quando o que se diz não significa nada além daquilo que foi dito. Falta a essa linguagem a dimensão poética da língua sobre a qual a psicanálise se fundamenta precisamente e opera. Imagine o que poderia ser o mundo em que se calasse a voz poética do delírio de um Vinicius de Moraes ou de um Carlos Drummond de Andrade”, diz ele, que está no Brasil para participar do 18º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, a partir desta sexta-feira (19) domingo (21), em São Paulo.

O tema do evento, organizado pela EPB (Escolha Brasileira de Psicanálise), é “O Sintoma na Clínica do Delírio Generalizado”. Ele falou a ÉPOCA sobre assunto e sobre o futuro da psicanálise. Segundo Gorostiza, todos nós somos seres delirantes:

ÉPOCA – A psicanálise tem futuro?
Leonardo Gorostiza – Creio que a psicanálise suporta desde um certo tempo e de maneira renovada um ataque teimoso de quem insiste em prognosticar a sua morte definitiva. Podemos dizer que, no entanto, ela ainda goza de boa saúde. Mas não convém nos contentarmos com isso apenas, porque estamos em uma época em que se produz uma verdadeira mutação que pode implicar em riscos para a sobrevivência da psicanálise. Refiro-me à ascensão da cultura de quantificação que faz da avaliação, dos questionários e dos protocolos o baluarte de uma suposta cientificidade. Nada mais longe disso do que a psicanálise.
Essa cultura, na realidade, trata-se de uma ideologia que aparenta cientificidade e que é funcional às burocracias administrativas. Essa ideologia tende a invadir as práticas “psi” e aponta ao coração poético, se posso dizer assim, de nossas existências.

ÉPOCA – O que são essas práticas?

Gorostiza – Vamos chamá-las por seu nome: as variantes psicoterapêuticas neurocognitivas. Nelas, o importante é o número de quadradinhos a serem preenchidos no questionário e o número de tarefas que o paciente deve realizar para alcançar a desejada “normalidade”. Porém, a questão central é que a linguagem que se utiliza nesse caso é equivocada, ou seja, trata-se de uma linguagem sem metáforas e metonímias, quando o que se diz não significa nada além daquilo que foi dito. Falta a essa linguagem a dimensão poética da língua sobre a qual a psicanálise se fundamenta precisamente e opera. Imagine o que poderia ser o mundo em que se calasse a voz poética do delírio de um Vinicius de Moraes ou de um Carlos Drummond de Andrade.

ÉPOCA – O senhor falou em delírio e esse é o tema do 18º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Todo mundo delira, não apenas aqueles a quem chamam popularmente de loucos?

Gorostiza – O título do nosso próximo encontro, que introduz a frase “Clínica do delírio generalizado”, indica com precisão uma perspectiva que transcende a concepção habitual de considerar o delírio como algo reservado aos loucos ou psicóticos. Essa noção ampla de delírio, a do delírio generalizado, parte de uma premissa: todo ser humano carece, especialmente no plano da sexualidade, de um programa instintivo que lhe é inerente e que lhe permite uma relação natural com o outro sexo.
Diante desse buraco, dessa ausência, não nos resta senão a tarefa de inventar algum modo de funcionamento, além da variável da sexualidade humana, que permita essa união. Assim, todas as nossas invenções, na medida em que se instituem sobre uma referência vazia, ou seja, onde não há nenhum objeto baseado na realidade, podem ser qualificadas, generalizadas, como delírios, pois, como se sabe, um delírio se caracteriza classicamente por não ter relação com a realidade objetiva. E se todos temos que inventar algo porque somos afetados por um buraco no nosso instinto, então somos todos delirantes. Essa é a tese de Lacan sobre a qual trabalharemos. Tese que está presente de algum modo em Freud.
ÉPOCA – E como esse delírio pode ajudar os pacientes da psicanálise?
Gorostiza – Essa pergunta me permite precisar o que dito anteriormente. Por falarmos do delírio generalizado não podemos ignorar as diferenças que existem entre os delírios psicóticos, dos loucos, e os delírios neuróticos. Refiro-me aqui às fantasias, aos sonhos e especialmente aos sintomas dos neuróticos.
No primeiro caso, o tratamento deverá ajudar o paciente a reduzir o seu delírio na medida em que isso lhe torna difícil manter laços sociais. Mas reduzir não significa eliminar. Pelo contrário, significa dar à sua invenção, que sempre será singular, particular, o lugar adequado à sua própria existência: aquele que o permite estabelecer contato com outros, porém sem renunciar às suas características pessoais.
No segundo caso, o da pessoa neurótica, o paciente deverá se reconhecer naquilo que o faz sofrer. Evidentemente, espera-se que a psicanálise resulte na redução da sua dor, mas não por isso podemos esperar a desaparição total desse delírio. Agir assim significaria adaptar o delirante a uma suposta normalidade que, em si mesmo, é um conceito questionável.
Pelo contrário, o processo ideal é fazer que cada delirante seja capaz de transformar a sua loucura incomparável com as demais em atos particulares de criação, esse é um dos objetivos implícitos da experiência analítica.
Finalmente, o delírio de cada um, entendido dessa maneira, pode ser considerado como uma bússola formidável, um ponto de orientação para o qual o analista deve mirar e não perder de vista aquilo que compõe a singularidade mais íntima de quem o consulta.

 

 

 

Publicado no site da Revista Época:

Renato Mezan, psicanalista e professor da PUC de São Paulo, começou a ler Harry Potter atraído pela repercussão da história na mídia. Leu o primeiro livro, leu o segundo e, a partir do terceiro volume da série, passou a importar a obra diretamente da Inlgaterra. Foi fisgado pela história. Mezan não faz parte, portanto, da geração que cresceu lendo Harry Potter. Ele faz parte de um grupo de adultos que se tornaram fãs do bruxinho. Em entrevista a ÉPOCA, Mezan se diz cético quanto à possibilidade de uma obra literária determinar a maneira de uma geração pensar ou agir. Segundo ele, o comportamento dos jovens sofre influências não só de livros, mas também de novelas, desenhos animados e seriados de televisão. Mezan afirma ainda que os temas discutidos por J. K. Rowling são universais. “Coragem, amizade, orgulho, ambição, ética e questões sociais sempre preocuparam a humanidade. O que há de especial em Harry Potter é que a autora trata desses assuntos focando o universo dos adolescentes, algo que os mobiliza, e tempera tudo isso com elementos mágicos.” Para o psicanalista, assim como a Ilíada e a Odisseia de Homero, datadas do século VIII a.C, ajudaram a educar a sociedade grega ao oferecer modelos de conduta, Harry Potter exerceu papel semelhante para uma geração. “Tudo indica que o livro vai perdurar por muitas outras gerações, porque sempre existirão jovens preocupados com os dilemas que a vida coloca.”

ÉPOCA – A série Harry Potter definiu os valores e comportamentos de uma geração?
Renato Mezan – Sou muito cético em relação a afirmações generalistas. Acredito que nenhuma geração é construída por esta ou aquela história. O comportamento dos jovens sofre influências não só de livros, mas também de novelas, desenhos animados e seriados de televisão. É importante lembrar que, diferentemente do que acontece na Europa, os brasileiros, em geral, leem muito pouco. No Brasil, a telenovela exerce um papel muito mais forte sobre a vida das pessoas do que um livro. Isso não quer dizer que, entre aqueles que tenham lido Harry Potter, nenhum ensinamento tenha sido adquirido. Sim, isso aconteceu. Mas não de uma forma determinista, entende?

ÉPOCA – Muitos jovens relatam que por causa de Harry Potter começaram a ter gosto pela leitura…
Mezan – Sim, isso é possível. Eu acredito, porém, que foi por meio dos filmes e do estardalhaço publicitário em torno da história que Harry Potter se fez conhecido entre as crianças e adolescentes. Sei de casos de vários jovens que nunca leram os livros, mas que conhecem as tramas de cor e salteado por causa das produções de Hollywood. Independentemente disso, J.K. Rowling escreve magnificamente bem para o público jovem. Ela é muito inventiva.
ÉPOCA – Qual é a razão do sucesso de Harry Potter?
Mezan – Há várias explicações. Em primeiro lugar, J.K Rowling acertou em cheio quando criou um universo paralelo em que os heróis são imperfeitos como nós. Não há quem seja totalmente do bem, nem quem seja totalmente do mal. Se analisarmos a história do Super-Homem, por exemplo, veremos que é ele perfeito, maravilhoso e idealizado. Hoje em dia, não há mais espaço para heróis assim. O Harry Potter tem medo, é impulsivo, faz mesquinharias com o Rony, seu melhor amigo, de vez em quando. O Dumbledore era um cara arrogante na juventude, achava que era o dono do mundo e errou bastante. Isso cria proximidade, aderência, com o leitor. Os personagens, apesar de serem bruxos e viverem num mundo mágico, são críveis, de carne e osso. Em segundo lugar, o livro é um romance de formação, em que o crescimento dos personagens é permeado de uma série de dilemas que todo jovem vivencia. A cada história, Harry, Rony e Hermione são introduzidos num contexto cada vez mais ameaçador em que os valores pesam. Em certo momento, o Dumbledore diz para o Harry: ‘tempos difíceis se aproximam e você precisará escolher entre o que é certo e o que é fácil’. Essa é a mensagem central da série: coragem para fazer o que é certo, discernimento para fazer o que é bom e força de vontade para combater o que é errado. Em terceiro lugar, Harry Potter foi escrito em inglês e não em finlandês ou em português. Monteiro Lobato, que também criou um mundo ficcional próprio com muitos volumes e aventuras, se tivesse escrito em inglês, talvez tivesse sido um grande sucesso do século XX em matéria de história infantil como é J.K. Rowling.
ÉPOCA – Em Harry Potter, há a discussão de uma série de questões, como o racismo, a amizade e o respeito à diversidade. São assuntos que preocupam a juventude dessa década ou não? Os valores em discussão refletem anseios e preocupações dessa geração?
Mezan – Não sei se há valores dessa década em discussão em Harry Potter. Sou meio cético em matéria de generalizações. O ser humano é um pouco vaidoso e narcisista por natureza e nós tendemos a achar que a nossa época é muito diferente das outras. Eu acho que não é. Não há grandes variações, a não ser em relação à tecnologia. Harry Potter não trata de questões dessa geração. No livro, há questões universais em pauta. Coragem, amizade, orgulho, ambição, ética e questões sociais sempre preocuparam a humanidade. O que há de especial no livro é que a autora trata desses assuntos focando o universo dos adolescentes, algo que os mobiliza, e tempera tudo isso com elementos mágicos. Ela discute esses valores tratando da adolescência, de questões ligadas ao desenvolvimento, à maturação. O Harry, assim como qualquer jovem, tem de passar por grandes provações para chegar à independência, à idade adulta. Ele começa a história saindo da casa dos tios, que são pais adotivos ruins e que o discriminam. O livro aborda assim problemas familiares que toda criança enfrenta, de uma maneira ou de outra, em diferentes graus. Em seguida, o Harry descobre um mundo no qual ele é aceito, valorizado, cujo futuro dos bruxos e dos trouxas está em suas mãos. Nesse contexto, ele percebe que só isso não basta para crescer, é preciso que se esforce, que faça amigos, passe por problemas de relacionamento com os outros, vivencie perdas e decepções. Conforme a história avança e os personagens crescem, tudo isso fica mais complexo, intenso. Qual geração nunca teve de enfrentar desafios dessa natureza? J.K. Rowling teve a habilidade, competência e sorte de explorar essa temática.
ÉPOCA – Um veio fecundo que mobiliza a humanidade desde sempre…
Mezan – Sem dúvida. Não acho que literatura, ficção, determine a forma como uma geração agirá, mas creio que forneça modelos de comportamento para angústias e dilemas do homem. Assim como a Ilíada e a Odisseia de Homero, datadas do século VIII a.C, ajudaram a educar a sociedade grega ao oferecer parâmetros de conduta, Harry Potter exerceu papel semelhante para uma geração. Ele é a Ilíada de uma geração. Os gregos se educaram com essas obras porque elas discutiam valores como honra, valentia, coragem, amizade, fidelidade, orgulho, ambição e questões sociais e éticas de comportamento – como eu devo ser, como eu devo me comportar, o que é certo, o que é o errado, o que é o bem, o que é o mal. Harry Potter entra nessa linhagem que começa com a Ilíada e a Odisseia e que está presente em inúmeros mitos das sociedades ocidentais. Nesse sentido, o livro não é diferente de outros romances que também tiveram um papel na sua época. E os melhores em todas as épocas se tornaram clássicos.
ÉPOCA – Harry Potter se tornará um clássico da literatura?
Mezan – Dentro do que é possível profetizar, tudo indica que sim. Ele é um livro para a juventude, e sempre existirão adolescentes que enfrentarão os mesmos problemas do personagem. Como crescer? Como ser feliz dentro das circunstâncias? Como conquistar amigos e lidar com os adversários variados? Como resolver os problemas que a vida vai colocando? Essas são dúvidas que todos sempre enfrentarão. Outro ponto que eu considero importante destacar, no caso específico de Harry Potter, é que a magia é como a ciência no nosso mundo. Ela tem de ser aprendida com grande esforço. O fato de você ser um bruxo de nascença e ter esse talento, essa capacidade, esse dom, não garante que você será um bom bruxo, vide as inúmeras vezes em que os feitiços dão errado. Então, o conhecimento tem um valor muito grande e deve ser adquirido arduamente e demonstrado. Essa é uma mensagem peculiar da história. Se você quer ter sucesso, tem de se esforçar e o esforço compensa.

Publicado no site da Revista Época:

Por Alberto Bombig

Em Memórias Póstumas de Brás de Cubas, um dos romances mais célebres da literatura mundial, Machado de Assis (1839-1908) dedica um capítulo, o sétimo, ao delírio. No leito de morte, o moribundo que dá título ao romance narra sua transmutação em barbeiro chinês, sua cavalgada através dos séculos montado em um hipopótamo e seu encontro com Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, conforme a mitologia grega. “Que me conste, ainda ninguém relatou seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá”, diz Brás Cubas logo no início do capítulo.

Se levarmos em consideração o fato de que em 1880, quando “Memórias” começou a ser publicado em folhetins, Sigmund Freud ainda não havia desenvolvido por completo sua obra fundadora da psicanálise, essa frase escrita pelo Bruxo do Cosme Velho, como Machado foi apelidado, pode ser considerada mais um indício de suas propriedades visionárias: a partir da sexta-feira (19) até o domingo (21), São Paulo abrigará o 18º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, cujo tema é justamente “O Sintoma na Clínica do Delírio Generalizado” e abordará o delírio como uma ferramenta do tratamento psicanalítico. O convidado especial do evento é o psicanlista Leonardo Gorostiza, presidente da Associação Mundial de Psicanálise. Ele fará uma palestra sobre o tema.

Desde Freud, explica o psicanalista Rômulo Ferreira, da comissão organizadora do encontro, o delírio é apresentado como uma tentativa de tratamento, uma forma de reparação da realidade por meio da linguagem. “É partir do sonho que se chega ao nó irredutível à interpretação. Cada vez mais, no mundo contemporâneo, as pessoas tentam utilizar recursos diferentes da palavra para contornarem esse nó. Esse é o grande desafio para a psicanálise hoje, ou seja, as soluções que não passam pela palavra. Quando o sujeito deseja abordar seu sofrimento pela via da psicanálise, ele vai utilizar a palavra, assim fazendo, o que aparece é o delírio que cada um constrói. Apesar de ser delírio, é o modo pelo qual se pode atingir o nó que Freud chamou de nó dos desejos sexuais infantis recalcados”, diz ele.

Segundo Ferreira, todos os indivíduos deliram, em diferentes graus. Jacques Lacan (1901-1981), psicanalista francês fundador da corrente hoje conhecida no Brasil como “lacaniana”, dizia que “todo mundo é louco, isto é delirante”. “Quando falamos de delírio generalizado, estamos colocando que, para todo ser falante, há algo que fica fora da linguagem, que não é alcançado pela linguagem, e que concerne ao modo de gozar de cada um. Frente a essa experiência de satisfação, o sujeito se põe a elucubrar e tudo que ele elucubra é invenção que tenta dar conta desse resto não contornado pela linguagem. Portanto, trata-se de um delírio, no sentido de que a referência é vazia”, explica Ferreira.

O encontro, a ser realizado no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, tem abertura marcada para as 14h de sexta-feira (19). A conferência de Gorostiza está marcada para as 19h desse mesmo dia. As incrições ainda estão abertas. Mais informações no site da Escola Brasileira de Psicanálise (www.ebp.org.br). Em dezembro, o mesmo tema será retomado pela EPB em Salvador (BA), no encontro De Perto Todo Mundo Delira, entre os dias 9 e 11.